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Nossa Senhora morreu ou não?
Estando a questão em aberto, pois o
dogma ainda está nos possíveis de Deus, escolha o
leitor o que a piedade mais lhe fala ao coração...
Anderson Carlos de Oliveira - 3º Ano
Teologia
Amor de mãe
Nada na ordem da criação reflete mais
o amor de Nossa Senhora por cada um de nós, quanto o
amor de uma mãe por um filho.
Para esta, não existe barreiras que a
impeça de estar junto a seu filho, para cumulá-lo de
carinho, desvelo, e impedir que lhe aconteça algum
mal. Nem mesmo a doença os pode separar. Há casos de
mães que chegam a ficar trinta e seis horas ao lado
seus filhos, sem sequer sair para comer ou dormir,
abandonando apenas o leito quando cessa o perigo da
doença. Isso sem falar de terapias, que usam sua voz
para trazer alguém em estado de coma à lucidez dos
sentidos... tal é o poder terapêutico do amor de uma
mãe por um filho.
Amor de Nossa Senhora por Nosso
Senhor
Ora, se isso acontece com o comum das
mães, como não será com Nossa Senhora em relação a
seu Divino Filho? O que não terá sentido a Mãe das
mães, ao gestar o "bendito fruto de seu ventre" (Lc
1, 18)? As diversas manifestações de Nosso Senhor
durante a mesma gestação, a infância de Jesus, os
trinta anos de convívio com Ele, o que não terá
produzido em seu coração e em sua alma? Ela, que foi
predestinada desde toda a eternidade para ser a Mãe
de Deus[1]? Esses mistérios insondáveis, nós só os
vislumbraremos - totus sed non totaliter - na Visão
Beatífica.
Ausência de Nosso Senhor na terra
Certo é que, no momento em que todos
abandonaram o Divino Redentor, Nossa Senhora não
abandonou, e até no momento trágico e lancinante da
Crucifixão e morte, Ela esteve junto a seu Filho.
Após a Ressurreição e a Ascensão,
enquanto Nossa Senhora, custodiada por São João
Evangelista, iluminava os homens com sua augusta
presença, é de se pensar quanto não terá Ela sofrido
com a ausência física de Nosso Senhor Jesus Cristo
na terra...
Nossa Senhora morreu ou não?
Nessa perspectiva, podemos
conjecturar se não seria lógico que, após dolorosa
separação entre Mãe e Filho, Ela quisesse se unir a
Ele na eternidade, passando desta vida à outra, pelo
mesmo caminho por Ele traçado: a morte.
Entretanto, não há nos Evangelhos
relatos a este respeito, seja do lugar, das
circunstâncias, etc. O que se supõe, vem-nos através
da Tradição. Inclusive, a crença antiga atribui dois
locais distintos para designar o lugar em que se deu
tal morte. Não se pode ter uma certeza sobre esta
questão, pois a Igreja ainda não se pronunciou sobre
ela, de maneira que a dúvida continua assaltando o
espírito dos fiéis: afinal, Nossa Senhora morreu ou
não?
Argumentos a favor e contra
Muitos são os que discutem sobre a
questão, alguns a favor da morte de Maria, outros
contra. Não faltam argumentos, na sua maioria de
peso de ambas as partes. Eis uma visão, à la vole d'oiseau,
do problema, e de alguns argumentos sustentados
pelos teólogos:
Os teólogos que sustentam a tese a
favor da morte de Maria têm, em seu arsenal de
argumentos, o apoio da maioria dos relatos da
Tradição, da festa litúrgica do Trânsito de Maria,
dos Santos Padres, e também de teólogos luminares na
Igreja, como por exemplo, São Tomás de Aquino, que
afirmava ser a carne da Virgem concebida em pecado
original e, por isto, contraiu tais deficiências (S.
Th. III, q. 14,a. 3 ad 1)[2], entre elas, a morte.
O testemunho de Santo Efrém († 373),
o primeiro a falar desta questão, é também
relevante: "Virgem, ela o deu à luz, e fica incólume
em sua virgindade; (...) Ela é virgem, e assim
morre, sem que sejam violados os selos de sua
virgindade".[3]
Outro argumento usado na contenda é o
de Santo Agostinho (†430) comentando a passagem do
Evangelho de São João (19, 27)[4]: "Confia ele sua
Mãe ao discípulo, pois havia de morrer antes de sua
Mãe Aquele que havia de ressuscitar antes que sua
Mãe morresse".[5]
Acrescentando "mais lenha à
fogueira", os teólogos apelam à razão teológica em
relação à morte de Maria: "morreu por exigências de
sua maternidade divino-co-redentora; para exemplo e
consolo nosso; [e também] Maria superior a Cristo no
que diz respeito à morte corporal?" [6]
Não faltariam testemunhos a favor da
morte de Maria, como o da Liturgia - cuja origem
remete ao séc. VII -, da Teologia Medieval, etc.
Mas, basta este elenco - que de si, já é bastante
forte - para se ter uma noção de qual a sua postura.
A outra corrente teológica baseia-se,
entre outros, nos argumentos de conveniência, por
exemplo, este: como em conseqüência da Maternidade
Divina está a exemplaridade de Maria, ou seja, como
"Maria é, em todos os domínios, a realização
primeira e exemplar dos dons que são espalhados na
Igreja, o tipo da Igreja" [7], todos os privilégios
que os Anjos e santos tiveram ou terão, e que convêm
a Nossa Senhora, Ela os teve, em grau
insondavelmente maior que todos eles. Ora, consta
que os últimos fiéis no fim dos tempos não
experimentarão a morte[8], e passarão desta vida à
outra sem morrer, devido às grandes tribulações por
eles sofridas, portanto, é arquitetônico que Nossa
Senhora também tenha esse privilégio, pois nenhum
sofrimento se compara ao d'Ela aos pés da Cruz.[9]
Outro ponto: se a mortalidade é uma
carência de um dom concedido anteriormente a Adão,
carência esta que é efeito de um castigo pelo pecado
cometido, como pode Nossa Senhora estar desprovida
deste dom?[10]
Outro argumento teológico utilizado
na discussão diz: Maria tinha o direito de não
morrer em virtude de sua Imaculada Conceição, que a
preservou da culpa e da pena anexa a esta, que é a
morte.[11]
Explicando melhor, com a sentença
dada por Deus, "morrerás" (Gn 2, 17), o homem foi
despojado do dom gratuito da imortalidade, ficando
reduzido ao estado de pura natureza. Neste, o
processo normal tende inevitavelmente à morte e nela
se desfecha; entretanto, o que seria natural em
outra ocasião, agora é penal, por causa do pecado. A
questão está em provar o porquê se encontrava Maria
na condição de mortalidade quando esta condição é
exclusivamente um castigo para os homens devido ao
pecado.
Os próximos argumentos do teólogo Pe.
Jugie são deduções da Tradição: "Até fins do século
VI se desconhecia em Jerusalém a existência de um
sepulcro da Virgem, ainda que a partir de fins do
século V se mostrou em Getsêmani uma casa de Maria,
de onde se diz que Ela foi levada ao Céu".[12]
"No princípio, em um círculo mais
restrito de fiéis, houve uma verdadeira tradição
oral [que se remonta a São João] sobre o modo com
que Maria passou desta terra ao céu. Mas é
necessário notar que essa tradição, conhecida por
muito poucos, se obscureceu muito rápido, ainda
mesmo na Palestina, a tal ponto que o palestino São
Epifânio não tem dela a menor lembrança".[13]
A Igreja não definiu a questão
Para ver o quanto a questão é
complicada, basta dizer que até os escritores mais
antigos abordavam o assunto com delicadeza, não
ousando se pronunciar sobre o tema, por risco de
serem alvo de censura. É o que expressa Santo
Epifânio (315-403): "A Sagrada Escritura não diz se
Maria morreu, se foi sepultada ou se não foi
sepultada... Conservou absoluto silêncio por causa
da grandeza do prodígio, a fim de não deixar
assombrados os espíritos dos homens. Quanto a mim,
não ouso falar disso. Conservo a questão em minha
mente e me calo". [14] E acrescenta mais adiante:
"(...) Com efeito, a Sagrada Escritura se colocou
acima dos espíritos dos homens e deixou este ponto,
na incerteza por reverência a essa Virgem
incomparável, a fim de evitar conjetura baixa e
carnal a respeito de Maria. Morreu? Não o
sabemos".[15]
Subiu aos Céus em corpo e alma
Poder-se-ia trazer a lume inúmeros
argumentos de as ambas correntes, e mostrar como o
assunto é por demais polêmico e difícil de ser
resolvido. Todos, entretanto, são unânimes em
afirmar que Maria Santíssima foi Assunta aos Céus em
corpo e alma, que se deu de fato a glorificação de
ambos. Porém, a Santa Madre Igreja, não querendo
entrar em pormenores anteriores à inegável Assunção
da Santíssima Virgem, ou seja, de como este fato se
deu, se através da morte e ressurreição, ou se foi
transladado imediatamente desta vida à celeste, por
um leve sono, assumindo ainda em vida um corpo
glorioso, se expressou da seguinte maneira por Pio
XII na Bula Muficentissimus Deus, n°18: "(...) para
credenciar a glória dessa mesma augusta Mãe e para o
gáudio e a alegria de toda a Igreja (...)
pronunciamos, declaramos e definimos ser dogma
revelado por Deus que a Imaculada Mãe de Deus, a
sempre Virgem Maria, terminado o curso da vida
terrestre foi Assunta em corpo e alma à Glória
Celestial." [16]
Assim, prescindindo intencionalmente,
quer do fato da "morte", quer da "não morte", e
apenas se limitando ao fato da Assunção da
Santíssima Virgem à glória celeste, a Igreja,
acolhendo todos os anseios de séculos de piedade
cristã, se mantém numa posição equilibrada, neutra e
prudente, dando a verdadeira impostação de espírito
para a questão de uma forma sábia encantadora:
Dormitio Beatae Mariae Virginis - o sono da
Santíssima Virgem.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
AQUINO, São Tomás de. Suma Teológica.
vol. 8. Loyola: São Paulo, 2002.
BERRIZBEITIA, Francisco. Aula de
Mariologia ministrada para a turma Santo Alberto
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06/05/2010.
BETTENCOURT, Estevão Tavares de, O.
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Rio de Janeiro, 1997.
BOVER, José M., S.J; ALDAMA, José
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ASUNCION DE MARIA: Estudio teológico histórico sobre
la Asunción corporal de la Virgen a los cielos. 2
ed. B.A.C.: Madrid, 1961.
CLÁ DIAS, Mons. João S. Pequeno
Ofício da Imaculada Conceição Comentado. Artpress:
São Paulo, 1997.
JUGIE, P. Martín. La mort et
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historicodoctrinale. Città del Vaticano, 1944.
LAURENTIN, René. A Questão Marial.
Traduzido por P. Manuel Alves da Silva, S. J.
Edições Paulistas: Lisboa, 1967.
NICOLAS, Auguste. La Virgen Maria y
el plan Divino. t. II.
ROYO MARIN, Fr. Antonio, O. P. La
Virgen Maria: teología y espiritualidad marianas.
B.A.C: Madrid, 1961.
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