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Resposta
à Carta Aberta – Pe. Fábio de Melo
15 fevereiro 2010
Autor: admin
Postado em:
Igreja
Fonte:
Blog Filho do Céu
Querido Gustavo,
Respondo, finalmente,
as questões que me foram apresentadas por você. Se
puder, publique a resposta em seu blog. Resolvi
recortar as questões e respondê-las uma a uma.
“Uma das suas primeiras
assertivas, que a mim causou muito espanto e
preocupação, foi a de que “precisamos nos despir
dessa arrogância de que nós somos proprietários da
verdade suprema”. De fato, “donos” da verdade nós
não somos. Mas nós a conhecemos! A Verdade é Cristo,
e não há outra”.
Gustavo, a Teologia nos
ensina que a Plentiude da Revelação é Cristo, mas
esta plenitude não significa esgotamento da verdade.
Os desdobramentos desta verdade estão em todos os
lugares do mundo. Deus continua se revelando.
Plenitude não significa finalização.
O que sabemos do Cristo
é processual. É assim que o Espírito Santo trabalha
na vida da Igreja. A Teologia está a caminho. A
grandeza da Revelação não cabe nos documentos que
temos, nem tampouco na Teologia que já
sistematizamos. O dogma evolui, pois é verdade
santa. Tudo o que é santo, movimenta, porque é vivo.
O que alimentou o passado precisa continuar
alimentando o presente, e o futuro. Não significa
modificar a verdade, mas sim, à luz do Espírito e da
autoridade da Igreja, buscar a interpretação que
favoreça o conhecimento da verdade que o dogma
resguarda. Este exercício eclesial manifesta ao
mundo o zelo pela verdade que nos foi confiado
cuidar e administrar.
Deus continua se
revelando ao mundo. O limite da Revelação é a
inteligência humana. Nós o vitimamos constantemente
com nossas reflexões, mas mesmo assim, Ele não deixa
de se manifestar. Onde houver uma brecha, lá Deus
acontecerá. Não podemos nos esquecer que a salvação
é oferecida a todos. É interesse amoroso de Deus que
a humanidade o conheça.
Nós, enquanto
proprietários desta verdade que é Jesus, cuidamos do
que recebemos. O cuidado da verdade recebida está
sustentado sobre dois pilares. Anúncio e
Reconhecimento. Nós anunciamos o Cristo. Nisso
consiste a ação evangelizadora da Igreja. Mas nós
também reconhecemos a sua presença, indícios do
sagrado, em outras religiões. Como reconhecemos?
Através dos frutos que produzem.
O amor que temos ao
Cristo deve ser suficiente para que saibamos
respeitar tudo o que é cristão, mesmo que as pessoas
não se reconheçam cristãs. É dialética, meu caro. É
a tensão escatológica que também esbarra na
hermenêutica cristã. Já, mas ainda não. É neste
ainda não que nos abrimos com humildade para
compreender que outras religiões também vivem e
perseguem os rastros do sagrado, e que mesmo oculto,
lá o Cristo já está sendo vivido. É uma questão de
tempo.
Recordo-me de uma frase
muito sábia, que um grande professor jesuíta
costumava repetir em nossas aulas de mestrado. Ele
dizia: “todo mundo tem o direito de viver o seu
antigo testamento.” A administração desta verdade só
pode ser responsável, à medida que reconhecemos que
ela já ultrapassou os limites dos muros, que estão
sob nossa custódia.
“E como explicar que,
ao falar da condição adâmica do homem, o senhor
tenha adotado a interpretação modernista segundo a
qual a historicidade das escrituras fica reduzida ao
nível das histórias da carochinha?! Dizer que Adão é
uma imagem simbólica, metafórica, “fabulesca”, não
faz parte da Doutrina Católica! O fato de a
linguagem empregada no livro de Gênesis ser recheada
de simbolismo não elimina o fato de que os
acontecimentos nele narrados tenham se dado no tempo
e no espaço tal como foram escritos. A interpretação
literal complementa e enriquece a hermenêutica que
se pode fazer a partir dos símbolos. Não é assim que
ensina a Igreja?”
Não, não é isso que
ensina a Igreja. Se você freqüentasse os meios
teológicos saberia muito bem que a linguagem
metafórica nem sempre está a serviço de um fato
concreto, pontuado no tempo e no espaço. Por isso é
metáfora.
A linguagem metafórica
não é mentirosa. Sou professor universitário e
ensinei Antropologia Teológica. É uma clareza que
não posso perder de vista. Ao falar da condição
adâmica nós precisamos pensar na humanidade como um
todo. Não temos a certidão de nascimento de Adão. O
que temos é a fé de que Deus criou a humanidade. Não
posso pontuar a existência do primeiro homem. A
sagrada escritura só que nos ensinar que somos
filhos Dele.
Gustavo, toda a
Antropologia teológica é construída na perspectiva
da Cristologia. A narração das origens está
diretamente ligada ao evento crístico. A Teologia da
Criação não é uma ciência exata. O que precisa ser
assegurado é o fato de que Deus é o criador do
Universo. A maneira como tudo isso se deu é
metáfora. Isso não significa meia verdade, nem
tampouco conto da carochinha. O que não pode ser
relativizado é a entrada de Jesus na história.
Há um destino Crístico
que nos foi oferecido (Soteriologia). Jesus é
histórico. Está situado no tempo e no espaço. Isso
sim é fundamental para a fé. Quando a Sagrada
Escritura narra o nascimento do primeiro homem, o
grande objetivo não é pontuar o início da vida
humana, mesmo porque o escritor sagrado não escrevia
com essa finalidade. Volto a dizer. A exegese nos
ensina que o escrito tem como principal objetivo
salvaguardar que o princípio de todas as realidades
criadas está em Deus (Criacionismo). É por isso que
a fé não se opõe à ciência no que diz respeito à
evolução (Evolucionismo). É simples. O primeiro
homem criado não pode ter tido a experiência que a
sagrada escritura relata. Ou você pode desconsiderar
tod os os conhecimentos a respeito da origem do ser
humano?
Gustavo, a fé não é um
conjunto de certezas, meu caro. Não temos provas
concretas para muitos aspectos da fé que
professamos. Se as tivéssemos não precisaríamos ter
fé. Acreditamos no que não vemos. Nem por isso é
“conto da carochinha”, como você sugere.
Não sei se você a
conhece, mas se não conhecer, sugiro que tenha
contato com a obra do americano Joseph Campbell, que
de maneira brilhante e pertinente, fez uma análise
da linguagem mitológica nas culturas. Na primeira
parte da obra “O poder do mito”, ele fala justamente
deste grande equívoco que costuma ser muito comum
entre as pessoas que não transcendem a linguagem.
Campbell é uma das maiores autoridades no campo da
mitologia, pois faz uma abordagem semiótica destas
narrações. O mito não é uma mentira, mas também não
precisa ser verdade, diz ele. O importante é a fé
que ele sugere. O importante é reconhecer que ele
está a serviço de uma verdade superior, porque não
cabe no tempo. Foi mais ou menos isso que desejou
Guimarães Rosa, ao escrever o conto “ A terceira
margem do rio”. Onde fica a terceira margem?
O mesmo não se dá com
as nossas convicções religiosas? O discurso
religioso é o discurso da terceira margem. Guimarães
Rosa compreendeu bem esta linguagem. E nós
precisamos compreendê-la também.
“Depois o senhor falou
que durante muito tempo “nós (subentenda-se: Igreja)
fomos omissos”. Parece-me que essa omissão se
referia às questões ecológicas. Pelo amor de Deus,
padre! A missão da Igreja é salvar a Amazônia ou
salvar as almas? Que conversa é essa de
“cristificação do universo ”? Por que dar atenção a
isso quando tantas almas se perdem na imoralidade,
na heresia, na inércia espiritual?”
Gustavo, sua visão
soteriológica é muito estreita. Salvar almas,
somente? Essa visão compartimentada do ser humano é
herética. Precisamos salvar a totalidade do humano,
meu caro. Esqueceu o postulado fundamental da
Antropologia cristã? Somos corpo e alma. Unidade. É
só ler Tomás de Aquino, Santo Agostinho.
Fazer uma pregação
desencarnada? A alma que quero salvar tem corpo,
sente frio, tem fome, medo. A alma que quero salvar
está num corpo que morre antes da hora, porque sofre
as conseqüências de um meio ambiente marcado pelo
pecado da omissão.
Se você fala da inércia
espiritual, a Igreja fala da inércia espiritual e
corporal. Cuidar do mundo é dar continuidade ao
milagre da criação. Somos “co-criadores”. Deus
continua criando, e nós correspondemos com a
experiência do cuidado. Criar é atributo divino, mas
cuidar é atributo humano. A horizontalidade da fé é
real, concreta. Isso é Teologia da Criação. Está nos
livros fundamentais, no catecismo da Igreja e também
nos ensaios teológicos mais arrojados.
Quanto à essa conversa
de “Cristificação do universo”, que você pareceu
banalizar, fazer menor, é apenas uma interpretação
belíssima da presença de Cristo no mundo, tomando
posse de todos os lugares, mediante o movimento
sacramental que Igreja celebra e propaga.
Todos os sacramentos
que a Igreja celebra nos cristificam. O nosso
comprometimento com o Cristo, mediante o processo de
conversão, nos cristifica. O gesto de caridade nos
cristifica. A oração nos cristifica. Ser cristão é
ao Cristo estar configurado. É boba essa conversa?
“Em seguida, veio
aquela colocação, esdrúxula e totalmente non sense,
de que a Igreja – que se considerava barca de Pedro
– após o Concílio Vaticano II passou a se enxergar
como Povo de Deus. Devo informar-lhe que a Igreja
permanece sendo barca de Pedro, e o povo de Deus é –
por assim dizer – a tripulação desta barca. Onde é
que houve mudança na compreensão da eclesiologia”?
A colocação esdrúxula
não tem outro objetivo senão ensinar a busca que a
Igreja tem feito de ser “Católica”. Você bem sabe
que o significado de ser católica é ser “universal”.
A expressão “barca de Pedro” não foi banida,
Gustavo. Eu falei de superação conceitual. O
problema não é a expressão, mas a interpretação que
podemos fazer dela. É uma questão hermenêutica. A
expressão “Povo de Deus” sugere a universalidade que
a Igreja quer e precisa ter. O concílio Vaticano II
compreendeu assim. É orientação da Igreja. Eu não
inventei isso. Toda essa aversão que você tem ao
Ecumenismo expõe uma fragilidade na sua reflexão.
Não é bla, bla, bla, como você costu ma dizer. A
Igreja trata com muito cuidado esta questão, pois
sabe que as questões religiosas estão sendo causas
de muito conflito no mundo. Banalizar a dimensão
ecumênica da Igreja é, no mínimo, irresponsável.
Há uma vasta literatura
na área da Eclesiologia refletindo sobre esse tema.
Sugiro que você a conheça. Só vai lhe enriquecer.
Meu filho, o importante
é a gente não esquecer, que mesmo estando na barca
de Pedro, é sempre cordial e cristão, acenarmos com
carinho e respeito aos que estão em barcas
diferentes. As grandes guerras atuais são movidas
por essa incapacidade de aceno.
“Entre as críticas
feitas pelos blogueiros, salientava-se a sua posição
– no mínimo, omissa – quando o apresentador Jô
Soares comentou que achava um absurdo que a Igreja
considerasse que o matrimônio servia apenas à
procriação. Pergunto: por que o senhor não afirmou,
como ensina a Igreja, que o matrimônio tem duas
finalidades: a unitiva e a procriativa? Por que não
disse que , sim, o amor dos esposos importa e ele é
– ou, pelo menos, deve ser – expresso pela unidade
(de pensamento e de vontade) que os cônjuges
demonstram em todas e cada uma de suas ações? Era
tão simples desfazer a argumentação errônea do
entrevistador e, ao mesmo tempo, aproveitar para
instruir as pessoas segundo a Sã Doutrina!”
Concordo com você. Eu
errei ao não ter usado os termos técnicos. Quis
levar a discussão através de outros recursos e
acabei não sendo claro como deveria.
“Pior que não ter
ensinado no momento oportuno, foi o senhor afirmar
que “o nosso discurso já mudou”! Diga-me, Pe. Fábio,
acaso a doutrina imutável da Igreja perdeu a sua
imutabilidade? O senhor crê, convictamente, que a
Igreja está, dia após dia, se amoldando à
mentalidade atual? Não seria missão da Esposa de
Cristo formar na sociedade uma mentalidade cristã,
isto é, fomentar um novo modo de pensar e de viver
que esteja impregnado do perfume de Cristo? Ou é o
contrário: o mundo é que deve catequizar a Igreja?”
Não, não é a Igreja que
precisa ser moldada aos formatos do mundo. Em nenhum
momento alguém me viu pregar sobre isso. Quando eu
disse que o discurso já mudou, eu me referia
justamente à visão antiga que ele tinha do “sexo no
casamento”. O apresentador desconhecia a reflexão a
dimensão unitiva do sexo na vida do casal.
“Em outro momento da
entrevista o senhor afirmou que não “conseguia”
celebrar a missa todos os dias? Não lhe parece
estranho, e prejudicial, que a sua “agenda” não
permita que o senhor celebre todos os dias a
Eucaristia? Qual deve ser o centro da vida do
sacerdote: o altar ou o palco? E quanto ao
breviário? A sua “agenda” permite que o senhor o
reze diariamente (considerando que não fazê-lo é
pecado grave para o sacerdote)?”
Gustavo, quanto ao zelo
que tenho pela minha vida de padre, gostaria de lhe
tranqüilizar. Não sou um aventureiro. Sou um homem
responsável, e se tem uma coisa que não perco de
vista é a maturidade humana. Se me conhecesse,
talvez não incorreria no julgamento velado de suas
palavras.
Deus conhece a vida que
tenho, e conhece também minha dedicação aos seus
projetos. Se você gosta de quantificar o que faz,
este não é o meu caso. Eu sou filho do Novo
Testamento. Jesus é o Senhor da minha vida. Com Ele
eu aprendi que a salvação não está na obrigação dos
ritos, mas na qualidade do coração que temos. Busco
cumprir todas as obrigações que a Igreja me pede,
mas não coloco nisso a certeza da minha salvação.
Não sou rubricista, nem pretendo me tornar. A Igreja
nos recomenda muitas coisas. Lutamos para cumprir
tudo. O que não conseguimos, deixamos nas mãos de
Deus. Só Ele poderá nos julgar.
“Depois veio a
pergunta: “o senhor teve experiências sexuais antes
de ser padre?” Creio um homem que consagrou
(frise-se o termo: consagrou) sua sexualidade a Deus
não deveria expor sua intimidade diante do público.
Mas, já que a pergunta indecorosa foi feita, a
resposta que esperei foi algo no sentido de fazer o
interlocutor entender que aquela questão era de
ordem privada; que não convinha ser tratada em
público. Em resumo: algo como “não é da sua conta!”.
Porém, que fez o senhor? Respondeu que teve, sim,
experiências sexuais precedentes, mas “às
escondidas”! Caro Pe. Fábio, o senhor acha que
convém dar uma resposta deste tipo? Isso não
induziria as pessoas a pensar que não existem padres
castos (considerando que muitos confundem castidade
com virgindade)? Isso não estimularia as pessoas a
crer na falácia segundo a qual todo jovem já teve,
tem ou deve ter experiências sexuais que precedam a
sua decisão vocacional?”
Gustavo, a vida é o
testemunho que temos. Não tenho dificuldade alguma
de responder às perguntas que me expõem como homem.
Não fiquei padre por acaso. Tenho uma história e
dela não fujo. São Paulo não fez o mesmo? Leia as
cartas que ele escreveu. Ele sempre fez referência à
vida vivida. Em nenhum momento se esquivou de contar
sua história, mas fez dela um instrumental para
orientar e sugerir vida nova em Cristo. Não gosto da
expressão “não é da sua conta”. Se eu me disponho a
ser entrevistado por alguém, tenho que saber que a
minha vida será a pauta. Só não admitiria o
desrespeito, mas isso não ocorreu. Não vou mentir
para o povo. Nas minhas pregações eu falo o tempo
todo da minha vida. Não quero bancar o santo. Eu
quero é ser santo.
“O senhor comentou,
ainda, que “para a gente ser padre, a gente tem que
ter amado na vida. É impossível (grifos meus) fazer
uma opção pelo celibato, pela vida consagrada, se eu
não tiver tido uma experiência de amar alguém de
verdade”. O senhor acha, realmente, que o homem que
nunca amou uma mulher não sabe amar? Baseado em que
o senhor diz isso? Que dizer então do meu pároco
que, tendo ido para o seminário aos 11 anos, nunca
namorou? Ele é menos feliz por causa disso? Menos
decidido pelo sacerdócio? Não creio que isso
proceda.”
Digo baseado no fato de
ser padre, conviver com padres, morar em seminários
desde os 16 anos de idade, ser diretor espiritual de
inúmeros seminaristas, padres e freiras. Digo isso
porque vivo os bastidores da Igreja. Sou amigo
pessoal de muitos bispos, religiosos, diretores de
seminários. Tenho 38 anos e sou profundamente
interessado pela vida sacerdotal. A minha
experiência, e a de tantos que passaram pela minha
vida, mostraram-me que o celibato é ESCOLHA. Para
haver escolha é preciso que haja possibilidades.
Quanto à felicidade de seu pároco, sobre ela não
posso dizer, pois não o conheço. Minha fala é fruto
do que a vida me mostrou, e só.
“O que se viu nessa
malfadada entrevista à rede globo foi a apresentação
de um comunicador, um cantor, um filósofo, um homem
qualquer. Pudemos enxergar Fábio de Melo. E só. O
padre passou desapercebidamente. De comunicadores,
cantores e filósofos, já basta: nós os temos em
número suficiente! Precisamos de padr es! Padres que
são, sim, homens por natureza; mas que tiveram sua
dignidade elevada pelo caráter impresso no
sacramento da Ordem. Homens que não são “como
quaisquer outros” porque receberam a graça e a
missão de agir in persona Christi. Temos carência de
ver padres que ajam, falem e – até mesmo – se
vistam, em conformidade com a sua dignidade
sacerdotal.”
Gustavo, se os seus
olhos me enxergaram como um “homem
qualquer”,perdoe-me. Talvez eu não tenha conseguido
revelar a você a sacralidade que move os meus
objetivos. Talvez você esteja elevado demais em sua
vida espiritual, e necessite de padres mais
espiritualizados, menos humanos. Tenho consciência
que ninguém precisa ser unanimidade. O que sei é que
na Igreja de Cristo há um lugar para um padre com o
meu perfil. Eu vejo a obra que Deus tem realizado na
minha vida e na vida de tantas pessoas que se
identificam com meu trabalho.
Meu filho, eu tenho
encontrado pela vida as dores do mundo, e com elas
tenho me ocupado. Demorei responder a sua carta
justamente por isso. Tenho gastado o meu sangue
nesta proeza de ser e agir “ in persona Christi”.
Não tenho outro objetivo senão tentar atualizar a
presença de Jesus na vida das pessoas. Eu o faço
como posso. Evangelizo a partir da teologia que amo,
mas também a partir da experiência que me guia.
Conheci a Deus através do amor ágape. Fiquei
fascinado quando me ensinaram que Deus é um pai
amoroso que não despreza os filhos que tem, mesmo
quando não correspondem ao que Ele espera.
O banquete em sua casa
está sempre posto, pronto para receber o filho que
tem fome. Adentrei a morada de Deus assim, na
condição de homem qualquer, mas o surpreendente é
que Ele não me recebeu como homem qualquer.
Recebeu-me com festa, com carinho, com misericórdia,
pois é capaz de me enxergar para além de minha
aparência. É isso que tenho feito, meu caro. Tenho
me esmerado para convencer as pessoas de que o mesmo
pode acontecer com elas.
Quanto à minha
dignidade sacerdotal, esta eu costumo preservar
através das minhas atitudes. Minha roupa de padre
não me garante muita coisa. O sacerdócio que o povo
espera de mim não está no hábito que ostento, mas na
sinceridade que preciso ter diante do meu
compromisso assumido. Zelo para que Deus não seja
transformado numa caricatura qualquer.
“Creio que muitos
destes desdobramentos que eu estou expondo não foram
sequer imaginados pelo senhor no momento em que
concedeu a entrevista, e enquanto respondia às
perguntas. Contudo, o ônus de quem se expõe à
opinião pública é, exatamente, suportar os possíveis
mal-entendidos que se geram quando as palavras são
compreendidas de modo diverso da intenção e da
mentalidade de quem as proferiu. Espero que tudo que
eu falei aqui tenha sido realmente um grande
mal-entendido… Sempre cabe, contudo, esclarecer os
desentendimentos mais graves que possam prejudicar
não só a sua imagem, mas a da Igreja como um todo.
Um ensino errado pode levar uma alma à perdição.”
Querido Gustavo, como
professor de Hermenêutica eu não tenho dificuldade
com os que pensam diferente de mim. Não é nenhum
crime termos diferenças. O problema é quando nós
fazemos da diferença um motivo de pré julgamento e
acusação.
“Perdoe-me,
sinceramente, a franqueza e, talvez, a dureza em
alguns momentos. Mas eu precisava lhe expor as
minhas dúvidas, impressões e inquietudes com relação
a essa entrevista. Se o senhor se dignar me
responder esta carta, ainda que de modo breve,
sucinto, ficaria imensamente grato. Despeço-me
rogando mais uma vez a sua bênção e garantindo-lhe
as minhas orações em favor de seu sacerdócio e de
sua alma.
Gustavo Souza, Indigno
filho da Santa Igreja Católica”
Perdôo, é claro que
perdôo, afinal, este o meu ofício. Como padre eu sou
ministro da reconciliação. Confesso que a ira de
seus seguidores, blogueiros que acompanham os seus
escritos, me feriu muito mais que suas indignações.
E é sobre isso gostaria de dizer, ao final desta
resposta. Não sei quem é você. Vi a sua foto, aquela
em que você diz estar embriagado de Coca Cola, e
nada mais. O pouco que sei de você está revelado nos
textos do seu blog. Tenho acompanhado seus
constantes combates, esforços para diminuir as
heresias e afrontas à Igreja. Admiro o seu zelo. Ele
expressa o amor que você tem a Deus. Mas confesso
que sinto falta de “misericórdia” em suas falas, meu
caro.
Gustavo, não faça do
seu amor à Igreja um obstáculo ao seu amor pelos
mais fracos, pelos diferentes. Defenda tudo o que
quiser defender, mas não permita que o seu discurso
seja causa de contenda e inimizades. Há sempre um
jeito de discordar sem precisar ofender. A ofensa
faz crescer o que é diabólico.
Cuidado com as
generalizações. Você tem combatido as CEBS. Cuidado.
Há muita gente honesta nestes movimentos. Eu as
conheço. Vi de perto o trabalho frutuoso,
espiritual, humano, salvação total acontecendo em
muitos lugares deste grande Brasil. Vi nomes sendo
citados de forma banal, irresponsável. Irmã Doroty
morreu defendendo o evangelho, meu filho. Gostando
você, ou não, ela é foi uma mulher comprometida com
as causas de Jesus. É muito triste ver o nome dela
citado no seu espaço, como se fosse uma “mulher
qualquer”. Chico Mendes foi um homem que defendeu
questões nobres. Só por isso já merece o nosso
respeito. Frei Beto é um homem fabuloso. Já fez
muita gente se aproximar de Deus, por meio de sua
inteligência e sabedoria aguçada.
Não limite o seu blog a
um lugar de combates. Que seja um lugar de
discussões, mas que sejam feitas à luz do princípio
fundamental que o evangelho nos sugere: o amor
ágape.
Gustavo, aproxime-se
cada vez mais do Coração de Jesus. Ele é a
interpretação da verdade que tanto buscamos
compreender. Deus está inteiro em Jesus. O grande
desafio da conversão é aproximar a nossa humanidade
de sua divindade.
Do Adão que há em nós
ao Cristo que nos foi oferecido. Mesmo estando em
estágios diferentes, uns mais à frente, outros mais
atrasados, não importa. O importante é que saibamos
ir juntos. Nossa salvação depende disso. Uma coisa é
certa, meu caro. Todos nós estamos desejosos de
acertar. Sigamos juntos nesta busca.
Com meu carinho e benção,
Pe.
Fabio de melo.
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